Compreendendo a exposição ocupacional a agentes químicos

A cada dia, a Química adquire maior importância na vida moderna, em virtude da crescente aplicação de produtos químicos, praticamente, em todas as atividades humanas. O Brasil encontra-se em oitavo lugar como produtor químico mundial e, em consequência do sucesso do agronegócio, o país é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.

Deve ser assinalado que, ao lado dos efeitos desejados, que justificam sua utilização, os produtos químicos apresentam efeitos tóxicos que, dependendo da intensidade da exposição, podem se manifestar a curto, médio e longo prazos. Os efeitos tóxicos podem corresponder a praticamente todas as doenças conhecidas, desde irritações dos tecidos, alergias, doenças dos diversos aparelhos (circulatório, respiratório, digestivo) e sistemas (nervoso, endócrino, imunológico), inclusive diversos tipos de câncer.

As doenças ocupacionais causadas por produtos químicos resultam, principalmente, da exposição repetida a baixas concentrações no ar dos locais de trabalho. Desse modo, a sua prevenção consiste, essencialmente, na eliminação ou redução das exposições repetidas. Nessa perspectiva, todo trabalhador precisa compreender os diversos fatores que influenciam a exposição ocupacional aos agentes químicos para cumprir, adequadamente, os procedimentos para a proteção de sua saúde. Neste artigo vamos explicar a exposição ocupacional aos agentes químicos, enfatizando a vulnerabilidade do nosso aparelho respiratório aos poluentes dispersos no ar.

Os agentes químicos podem estar presentes nos ambientes de trabalho sob a forma de gases, vapores, líquidos e aerodispersóides. Os gases se apresentam no estado gasoso a 25º C de temperatura e 760 mm Hg de pressão. Os vapores correspondem à fase gasosa de substâncias que, a 25º C de temperatura e 760 mm Hg de pressão, são sólidas ou líquidas. Os aerodispersóides correspondem a material sólido ou líquido microfragmentado, sob a forma de partículas em suspensão no ar, abrangendo: poeiras – partículas sólidas produzidas pela ruptura mecânica de materiais sólidos; fumos – partículas sólidas resultantes da condensação e oxidação de emissões geradas por substâncias sólidas submetidas a altas temperaturas; névoas – partículas

líquidas produzidas pela ruptura mecânica de líquidos; e neblinas – partículas líquidas produzidas pela condensação de vapores de substâncias líquidas à temperatura ambiente.

Em todas essas formas, os agentes químicos tendem à expansão no ar. Os gases e vapores tendem a se expandir indefinidamente, ocupando todo o espaço disponível. Os líquidos evaporam em contato com o ar e tendem a sofrer projeções e derramamentos, bem como a fluir para níveis mais baixos. Ao aumentar sua superfície de contato com o ar, os líquidos passam a evaporar mais. As névoas e neblinas têm também grande expansibilidade no ar. Os sólidos, na forma microfragmentada, como poeiras ou fumos, tendem a se expandir no ambiente, principalmente na presença de correntes de ar. As altas temperaturas e altas pressões, comuns nos processos industriais, aumentam a tendência expansiva dos agentes químicos no ar.

Por intermédio da dispersão aérea, os agentes químicos atingem, passivamente, a zona respiratória dos trabalhadores, conforme mostra a figura 1.

exposicao ocupacional agentes quimicos

 

Além da expansibilidade aérea das substâncias, outros fatores contribuem para tornar os pulmões a principal porta de entrada no organismo de substâncias tóxicas presentes no ar dos locais de trabalho: 1) a respiração é um processo contínuo, ou seja, o homem trabalha e ao mesmo tempo inala o ar ao seu redor; 2) a área de absorção dos alvéolos pulmonares é imensa, estimada em 140 m2, em contato direto com o ar ambiente; 3) inexistência de qualquer barreira entre a zona respiratória e os alvéolos pulmonares; e 4) a espessura da membrana que separa o ar ambiente do sangue nos pulmões é muito delgada, facilitando a absorção pulmonar e a entrada dos poluentes no sangue.

absorcao pulmonar entrada dos poluentes sangue

 

A tendência expansiva das substâncias no ar associada às características anatômicas e fisiológicas descritas fazem dos pulmões a principal via de absorção de agentes químicos, responsável por cerca de 90% das intoxicações ocupacionais.

A pele íntegra, com uma área inferior a 2 m2 no homem adulto, pode ser porta de entrada de substâncias constituídas por moléculas pequenas e solúveis em gordura, no estado líquido, que estabeleçam contato direto com ela, ou pelo uso de roupas impregnadas por resíduos químicos.

O aparelho digestivo, com uma área de absorção de cerca de 250 m2, pode funcionar como via de entrada de agentes químicos presentes nas mãos e unhas sujas, bem como em decorrência da ingestão de alimentos no local de trabalho ou da ingestão acidental.

Após a absorção por qualquer dessas vias, os agentes químicos entram na circulação sanguínea e podem exercer ação tóxica direta sobre o sangue, bem como sofrer distribuição pelas diversas partes do organismo, atravessando barreiras formadas por células de diferentes tecidos do organismo.

Torna-se evidente a importância de proteger a zona respiratória das pessoas que trabalham com produtos químicos. Para tanto, é necessária a colocação de barreiras apropriadas entre os locais de emissão de produtos químicos e a zona respiratória dos trabalhadores.

Tais barreiras devem ser previstas no projeto do empreendimento: 1) enclausuramento da fonte para evitar a emissão de agentes químicos no ar; 2) sistemas de exaustão na trajetória para evitar a expansão dos agentes químicos no ar; e 3) uso de equipamentos de proteção respiratória, conforme o Programa de Proteção Respiratória preconizado pela legislação.

Com base nessas informações, os trabalhadores estarão capacitados a melhor cumprir a sua parte nos procedimentos de prevenção de intoxicações ocupacionais.

Newton Richa – Médico do Trabalho
Representante da UFRJ na Comissão Nacional de Segurança Química CONASQ/MMA.