Retardantes de chama: o legado invisível de um produto para segurança

Fonte: https://lati.com/en/flame-retardant-additives-what-they-are-and-why-they-really-matter/
Os retardantes de chama foram fundamentais para aumentar a segurança de diversos produtos utilizados ao longo das últimas décadas. Incorporados a equipamentos eletrônicos, móveis, espumas, materiais de construção e artigos de consumo, esses compostos ajudam a reduzir a inflamabilidade dos materiais e retardar a propagação do fogo, contribuindo para a prevenção de acidentes e ampliando o tempo disponível para evacuação em situações de emergência.
Entre as diferentes classes utilizadas pela indústria, destacam-se os retardantes de chama bromados (BFRs, do inglês Brominated Flame Retardants), amplamente empregados devido à sua eficiência, baixo custo e compatibilidade com diferentes materiais. Durante décadas, estiveram presentes em televisores, computadores, eletrodomésticos, placas eletrônicas, estofados e diversos outros produtos de uso cotidiano.
Com o avanço das pesquisas, no entanto, alguns desses compostos passaram a despertar preocupação por apresentarem características como persistência ambiental, bioacumulação e potencial para causar efeitos adversos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje, o debate sobre os retardantes bromados vai além de sua utilização industrial: a principal questão é o grande volume de produtos antigos que ainda contêm essas substâncias e que estão ingressando nos fluxos de resíduos e reciclagem.
O que são retardantes de chama?

Fonte: PESTANA et al. (2008).
Retardantes de chama são substâncias adicionadas aos materiais para reduzir ou retardar a combustão. Seu mecanismo de ação pode envolver a formação de barreiras protetoras, a redução da disponibilidade de oxigênio ou a interrupção das reações químicas que sustentam as chamas.
Eles pertencem a diferentes grupos químicos, incluindo compostos inorgânicos, organofosforados, nitrogenados e halogenados. Entre estes últimos estão os retardantes bromados, que, por muitos anos, foram considerados uma solução eficiente para atender requisitos de segurança contra incêndios em diversos setores industriais.
O passivo ambiental dos retardantes bromados
Diversos retardantes bromados, como PBDEs, PBBs e HBCD, apresentam elevada estabilidade química, baixa degradabilidade e afinidade por tecidos ricos em gordura. Essas características favorecem sua permanência no ambiente por longos períodos e sua acumulação em organismos vivos.
Como resultado, estudos identificaram esses compostos em solos, sedimentos, organismos aquáticos e tecidos biológicos humanos. Alguns também podem sofrer biomagnificação, processo pelo qual suas concentrações aumentam ao longo da cadeia alimentar.
Essas propriedades levaram diferentes países a restringir ou eliminar gradualmente determinados retardantes bromados. Alguns passaram a integrar a lista de Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) da Convenção de Estocolmo, acordo internacional voltado ao controle de substâncias químicas persistentes, bioacumulativas e potencialmente tóxicas.
Contudo, a regulamentação não eliminou o problema. Ao contrário de outros contaminantes, os retardantes bromados foram incorporados a produtos com longa vida útil. Equipamentos eletrônicos, móveis, espumas e materiais plásticos fabricados antes das restrições internacionais continuam em uso ou chegam gradualmente ao final de sua vida útil.
Quando o passado retorna à cadeia produtiva
Grande parte dos retardantes bromados presentes no ambiente atualmente está relacionada a esse estoque histórico de produtos. O desafio tornou-se ainda mais relevante com a expansão da reciclagem e da economia circular.
Quando resíduos contendo esses compostos não são adequadamente identificados e segregados, os retardantes bromados podem acompanhar os materiais reciclados e retornar à cadeia produtiva. Nos últimos anos, pesquisadores identificaram a presença dessas substâncias em plásticos reciclados e em produtos de consumo fabricados a partir desses materiais, demonstrando como compostos utilizados décadas atrás podem permanecer circulando mesmo após sua restrição.
Embora a simples presença de uma substância não represente necessariamente risco à saúde, esses achados reforçam a importância de monitorar os fluxos de resíduos e garantir a destinação adequada de materiais contaminados.
O desafio para a toxicologia moderna
A literatura científica descreve possíveis efeitos associados à exposição a determinados retardantes bromados, incluindo alterações endócrinas, impactos sobre a função tireoidiana, efeitos no desenvolvimento neurológico e toxicidade reprodutiva. No entanto, a ocorrência de danos depende dos níveis de exposição e de diversos fatores que compõem a avaliação de risco.
Nesse contexto, o principal desafio atual não é apenas desenvolver alternativas mais seguras para o futuro, mas também lidar com o legado químico já existente. Milhões de eletrônicos, móveis, espumas e plásticos produzidos antes das restrições regulatórias continuarão ingressando nos fluxos de resíduos por muitos anos.
Mais do que uma discussão sobre prevenção de incêndios, os retardantes bromados representam um desafio de gestão ambiental. A identificação, segregação e destinação adequada desses materiais serão essenciais para evitar que contaminantes históricos retornem à cadeia produtiva ou sejam liberados ao ambiente, transformando um problema do passado em uma preocupação permanente para as próximas gerações.
Fontes:
https://lati.com/en/flame-retardant-additives-what-they-are-and-why-they-really-matter/
INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS (IBAMA). Parecer Técnico nº 514/2018/COASP/CGASQ/DIQUA. Brasília: IBAMA, 2018.
PESTANA, Cezar Rangel; BORGES, Keyller Bastos; FONSECA, Patrícia da; OLIVEIRA, Danielle Palma de. Risco ambiental da aplicação de éteres de difenilas polibromadas como retardantes de chama. Revista Brasileira de Toxicologia, v. 21, n. 2, p. 41-48, 2008.
CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE (CONAMA). Resolução CONAMA nº 516, de 2026. Dispõe sobre restrição de determinadas substâncias perigosas em equipamentos eletroeletrônicos. Diário Oficial da União, Brasília, 2026.
PESTANA, Cezar Rangel; BORGES, Keyller Bastos; FONSECA, Patrícia da; OLIVEIRA, Danielle Palma de. Risco ambiental da aplicação de éteres de difenilas polibromadas como retardantes de chama. Revista Brasileira de Toxicologia, v. 21, n. 2, p. 41-48, 2008.
Argentina atualiza regras de rotulagem de produtos fitossanitários e aproxima comunicação de perigos do modelo GHS
O SERVICIO NACIONAL DE SANIDAD Y CALIDAD AGROALIMENTARIA (SENASA) publicou a Resolução nº 373/2026, estabelecendo novos requisitos para a rotulagem de produtos fitossanitários comercializados na Argentina. A norma entrou em vigor em 25 de abril de 2026 e revoga expressamente a Resolução SENASA nº 367/2014, que regulamentava o tema até então.
A principal mudança é a incorporação das diretrizes do Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS/SGA), alinhando a comunicação de perigos dos produtos fitossanitários argentinos a padrões internacionalmente reconhecidos.
Para fabricantes, importadores e exportadores, a atualização representa mais do que uma revisão gráfica das etiquetas. Na prática, será necessário revisar classificações toxicológicas, elementos de comunicação de perigo e informações ambientais para garantir conformidade com os novos requisitos do SENASA.
Nova regulamentação substitui modelo anterior de rotulagem

A Resolução SENASA nº 373/2026 atualiza os requisitos de rotulagem de produtos fitossanitários na Argentina, incorporando formalmente elementos do Sistema Globalmente Harmonizado (GHS/SGA) na comunicação de perigos à saúde humana e ao meio ambiente.
Entre as principais mudanças introduzidas pela nova regulamentação estão:
- adoção de critérios do GHS Rev. 9 para classificação dos perigos à saúde humana;
- utilização obrigatória de pictogramas, palavras de advertência e frases harmonizadas de perigo;
- inclusão de requisitos específicos para corrosão e irritação dérmica, lesões oculares, sensibilização cutânea e respiratória;
- ampliação da comunicação de perigos ambientais;
- padronização da estrutura e apresentação das etiquetas;
- utilização de pictogramas de equipamentos de proteção individual recomendados pela FAO
Perigos ambientais ganham maior protagonismo
Outro aspecto relevante da nova regulamentação é o tratamento dado aos perigos ambientais.
Os anexos da resolução introduzem categorias específicas para toxicidade aquática, para aves e para abelhas, desta forma, a norma reforça a comunicação de perigos para organismos não alvo, ampliando a visibilidade de informações ecotoxicológicas relevantes na rotulagem dos produtos fitossanitários.
Como consequência, empresas devem revisar possíveis inconsistências com as novas exigências de classificação e comunicação de perigos.
O que muda para empresas brasileiras que atuam na Argentina?
Para empresas brasileiras que comercializam produtos fitossanitários na Argentina, a nova regulamentação traz um cenário interessante de convergência regulatória.
Nos últimos anos, o Brasil também avançou significativamente na incorporação dos conceitos do GHS em diferentes instrumentos regulatórios. A atualização da classificação toxicológica de agrotóxicos promovida pela ANVISA e a adoção do GHS em documentos como FDS contribuíram para aproximar o país dos padrões internacionais de comunicação de perigos.
Com a publicação da Resolução 373/2026, a Argentina passa a adotar uma abordagem mais próxima daquela observada no Brasil:
| Item | Argentina (Res. 373/2026) | Brasil |
| Classificação de perigos à saúde | GHS Rev. 9 adotado para classificação e comunicação dos perigos à saúde humana. | Alinhamento ao GHS e à classificação toxicológica da ANVISA. |
| Comunicação de perigos | Pictogramas GHS, palavras de advertência e frases harmonizadas obrigatórias. | Elementos de comunicação de perigo amplamente utilizados em rótulos e FDS. |
| Toxicidade aguda | Comunicação vinculada diretamente às categorias GHS. | Comunicação vinculada à classificação toxicológica aprovada pelos órgãos reguladores. |
| Perigos ambientais | Categorias específicas para organismos aquáticos, aves e abelhas. | Critérios ambientais conduzidos principalmente pelo IBAMA, incluindo classificação de periculosidade ambiental. |
| Estrutura da etiqueta | Modelo padronizado pelo SENASA, dividido em três seções obrigatórias. | Estrutura aprovada durante o processo de registro, observando requisitos dos órgãos competentes. |
Embora exista uma aproximação conceitual entre os dois países, as exigências não são equivalentes.
Empresas brasileiras que exportam ou registram produtos na Argentina não devem assumir que um rótulo aprovado no Brasil atenderá automaticamente aos requisitos do SENASA. Diferenças relacionadas à classificação ambiental, frases obrigatórias, layout regulatório, conteúdo aprovado em registro e requisitos específicos de cada autoridade continuam exigindo avaliações independentes.
Uma oportunidade para harmonização regional
Sob a perspectiva regulatória, a nova resolução representa um passo importante em direção à harmonização internacional da comunicação de perigos para produtos fitossanitários.
Para empresas que atuam em múltiplos mercados da América Latina, este é um momento oportuno para revisar classificações toxicológicas e ecotoxicológicas, avaliar a consistência entre registros e rótulos e identificar oportunidades de harmonização de processos internos de classificação e rotulagem.
Mais do que uma alteração de layout de rótulos, a nova regulamentação argentina reforça a importância de uma gestão integrada entre toxicologia, assuntos regulatórios e desenvolvimento de embalagem, reduzindo riscos de não conformidade e facilitando o acesso ao mercado.
Minha etiqueta argentina agora vai ficar parecida com a brasileira?
A resposta é: Sim, mais parecida sob a ótica do GHS, mas ainda longe de ser idêntica.
A Intertox oferece suporte técnico para o setor de defensivos agrícolas, incluindo classificação GHS, revisão de rótulos, elaboração de FDS, avaliação toxicológica, estratégia regulatória e adequação de produtos para mercados nacionais e internacionais.
Fontes:
https://www.argentina.gob.ar/normativa/nacional/resoluci%C3%B3n-373-2026-425153
https://www.casafe.org
Incidentes químicos recentes reforçam a importância da gestão de produtos químicos

Diferentes ocorrências envolvendo produtos químicos registradas em agosto de 2026 reforçam a importância de uma gestão adequada nas atividades de manuseio, armazenamento e transporte.
Entre os casos registrados, estão: (1) o tombamento de um caminhão carregado com nitrato de amônia na PR-317, em Toledo (PR), mobilizando equipes do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e atendimento especializado devido ao vazamento da carga; (2) uma explosão em um compartimento de armazenamento de enxofre em uma fábrica em Campo Grande (MS), gerando intoxicação em colaboradores por inalação; e (3) um incêndio de grandes proporções que atingiu uma fábrica de insumos para tintas no distrito de Cumbica, em Guarulhos (SP), exigindo o isolamento do perímetro.
Eventos dessa magnitude deixam uma pergunta inevitável para gestores, engenheiros e profissionais das áreas de Saúde, Segurança e Meio Ambiente: “E se uma situação como essa acontecesse na minha empresa hoje?”
Uma gestão adequada de produtos químicos exige uma visão integrada, considerando os perigos associados aos produtos, as condições de armazenamento, as incompatibilidades químicas, as formas de manuseio e transporte e todos os demais requisitos aplicáveis à operação.
Esgotar as possibilidades de mitigação de riscos exige governança ativa e revisão constante dos processos produtivos e logísticos. Para que a sua operação responda com segurança a essas indagações é fundamental conhecer os perigos envolvidos e garantir que os controles internos estejam adequadamente estruturados. Nesse contexto, contar com suporte especializado faz toda a diferença.
Quer entender como a Intertox pode apoiar a gestão de produtos químicos na sua empresa? Entre em contato conosco: https://intertox.com.br/fale-conosco/
Notícias originais:
• O Paraná — Caminhão com nitrato de amônia tomba e interdita PR-317 em Toledo: https://oparana.com.br/cotidiano/caminhao-com-nitrato-de-amonia-tomba-e-interdita-pr-317-em-toledo/
• G1 — Incêndio atinge imóvel comercial em Cumbica, em Guarulhos: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/27/incendio-atinge-imovel-comercial-em-cumbica-em-guarulhos.ghtml
• G1 — Explosão em tanque com enxofre provoca incêndio em fábrica de ração em Campo Grande: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/08/21/explosao-em-tanque-com-enxofre-provoca-incendio-em-fabrica-de-racao-em-campo-grande.ghtml