Toxicologia ambiental: Brasil controlará uso de mercúrio no País

Esta semana o Ministério do Meio Ambiente (MMA) divulgou o projeto que terá, até 2017, o diagnóstico preciso da situação atual do mercúrio no país, em especial um inventário de emissões e liberações. O documento trará, também, uma avaliação da infraestrutura e capacidade nacional para a gestão do mercúrio, inclusive a legislação nacional. O inventário é resultado do Projeto de Desenvolvimento da Avaliação Inicial da Convenção de Minamata sobre Mercúrio no Brasil.

O mercúrio, símbolo químico Hg, é o único metal líquido à temperatura ambiente, possui caráter nobre e pode formar compostos orgânicos e inorgânicos. Bastante raro, porém com extração e purificação simples, o Hg ocorre na forma mineral, sendo o cinábrio o mineral mais abundante, é um elemento presente naturalmente na crosta terrestre, na água, nos seres vivos e na atmosfera. Dentre as diferentes formas químicas do Hg, o metil-Hg+ é a forma de maior importância ambiental devido a sua elevada toxidez aos organismos superiores, particularmente mamíferos. O metil-Hg é, em sua maior parte, produzido biologicamente por bactérias como um mecanismo natural de detoxificação. Nos mamíferos, o metil-Hg acumula-se preferencialmente no sistema nervoso central devido à sua afinidade com aminoácidos abundantes neste sistema, levando à disfunção neural e eventualmente à paralisia e morte.

A absorção do mercúrio dá-se principalmente por via pulmonar, através da inalação, apesar de residualmente também pode ocorrer por via digestiva e cutânea. A percentagem de retenção nos pulmões varia de 74% a 76% à concentração ambiental de 100 mg/m3.

Dos pulmões, o mercúrio é levado pelo sangue e distribui-se pelo organismo, acumulando-se nos rins, no sistema nervoso central, no fígado, na medula óssea, nas vias aéreas superiores, na parede intestinal, na pele, nas glândulas salivares, no coração, nos músculos e na placenta O metilmercúrio é a forma orgânica mais importante sobre o ponto de vista da exposição para o homem. A absorção do mercúrio presente nos alimentos ao nível gastrointestinal é de cerca de 15%, enquanto a absorção do metilmercúrio é da ordem dos 90%.

A toxicidade do mercúrio é diretamente relacionada com a sua ligação covalente aos grupos tiol das diferentes enzimas celulares nos lisossomas e na mitocôndria, o que leva à interrupção do metabolismo e da função celular. O Hg tem grande afinidade com grupos sulfidrilas - SH -, integrante da estrutura ou da função da maioria das enzimas, o que confere a este metal a capacidade de interferir em diferentes momentos metabólicos. Sua principal ação tóxica se deve à ligação com grupos ativos da enzima monoaminooxidase (MAO), resultando no acúmulo de serotonina endógena e diminuição do ácido 5-hidroxindolacético, com manifestações de distúrbios neurais.

De entre os possíveis mecanismos de toxicidade podemos enumerar a inativação de várias enzimas, proteínas estruturais ou processos de transporte, ou alteração da permeabilidade da membrana celular. O mercúrio tem também afinidade, embora menor, para se ligar aos grupos carboxilo, amida, amina e fosforilo das enzimas, o que contribui para a sua toxicidade.

Tem sido investigada uma variedade de alterações induzidas pelo mercúrio, incluindo o aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica, inibição da polimerização e formação dos microtúbulos, interrupção da síntese de proteínas, paragem da replicação do ADN e interferência na atividade da polimerase do ADN, alteração na transmissão sináptica, rotura de membranas biológicas, desregulação do sistema imunitário e mudança na homeostasia do cálcio.

O mercúrio origina uma depleção dos níveis de glutationa, superóxido dismutase, catalase e glutationa peroxidase, o que confere uma menor proteção das células relativamente ao fenômeno de stress oxidativo. Além disso, através das alterações no estado dos tióis intracelulares, o mercúrio pode induzir a peroxidação lipídica, disfunção mitocondrial e mudanças no metabolismo do grupo heme.

O HgCl2 pode causar a despolarização da membrana interna mitocondrial, com consequente aumento na formação de H2O2. Sabe-se também que as alterações provocadas pelo mercúrio na homeostasia mitocondrial do cálcio podem aumentar o stress oxidativo induzido pelo Hg2+ nas células renais. Como resultado do aumento da formação de radicais livres e da peroxidação lipídica, o dano oxidativo no rim pode originar numerosas mudanças bioquímicas, incluindo a excreção em excesso de porfirinas na urina.

Atendendo à elevada lipossolubilidade do metilmercúrio, este direciona-se para a mielina, onde inibe eficazmente a excitabilidade neuronal. Verificou-se também que o cloreto mercúrico tem provavelmente uma atividade inibitória, ao ligar-se aos grupos sulfidrilo das proteínas de transporte do Ca2+. Isto leva à inibição da contração muscular e ao aumento da inibição neuronal.

Por último, a divisão e migração celular requerem microtúbulos funcionais para ocorrerem normalmente, logo, estes têm sido sugeridos como alvos primários do metilmercúrio, no que diz respeito à interrupção do desenvolvimento do sistema nervoso.

A principal ação do metilmercúrio é inibir os receptores do GABA localizados na membrana das células de Purkinje e nos neurônios do cérebro. Por outro lado, o metilmercúrio atua a nível dos receptores do glutamato e transportadores localizados nas membranas das células neuronais do cérebro em desenvolvimento.

O mercúrio inorgânico pode induzir a proteína de ligação aos metais, a metalotionina. A ligação a esta proteína é geralmente um processo de destoxificação. Tanto o mercúrio orgânico como o inorgânico provocam uma diminuição na resposta imunológica. Foi observado também que o mercúrio pode aumentar a anafilaxia através da estimulação da produção de IgE.

Os complexos processos bioquímicos a que os metais estão sujeitos no organismo ainda não estão perfeitamente definidos, há uma necessidade constante de continuar a realizar estudos nos mais diversos campos de forma a poder-se reduzir a incidência dos malefícios dos metais pesados na saúde pública.

Devido a  esta escassez de dados é esperado que o referido estudo levante informações amplas sobre a atual situação do mercúrio no país de modo a subsidiar a ratificação e implantação da Convenção de Minamata no Brasil. “O projeto nos proporcionará informações novas e atualizadas sobre o ciclo do mercúrio no País e capacitará técnicos para gerenciar os riscos advindos do mercúrio”, relata a diretora de Qualidade Ambiental do Ministério de Meio Ambiente, Letícia Carvalho.


Referências

AZEVEDO, Fausto Antonio. Toxicologia do Mercúrio. Ed. Rima, São Carlos/SP, 2003. 272 p.
AZEVEDO, Fausto Antonio, CHASIN, Alice A. M. (coord.) Metais: Gerenciamento da Toxicidade. Ed. Atheneu, Rio de Janeiro, 2003. 554 p.
RIBEIRO, Rafaela. Brasil controlará uso de mercúrio no País. 2015. Editor: Marco Moreira. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2015.
ROCHA, Adriano Ferreira da. Cádmio, Chumbo, Mercúrio – A problemática destes metais pesados na Saúde Pública? 2009. 1 v. Monografia (Especialização) - Curso de Ciências da Nutrição, Universidade de Porto, Porto, 2009.
BRASIL, Meio Ambiente do. Diagnóstico Preliminar sobre o Mercúrio no Brasil. 2013. Disponível em: . Acesso em: 28 jul. 2015.
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