Meio ambiente: A biopotencialidade econômica do Brasil, um caso doméstico real – dentre muitos

Escrito por Fausto Azevedo | 25 Outubro 2010

Nessa linha “em cima da notícia” que temos adotado para nossas colunas Toxicologia em Manchete e Meio ambiente em manchete deparamo-nos com a matéria intitulada A Califórnia vem a Bahia, de Eduardo Athayde, que foi muito recentemente divulgada (21/10/2010) e que nos chama por demais a atenção.

Nela ficamos sabendo que “o presidente do WWI-Worldwatch Institute, Christopher Flavin, um dos mais respeitados cientistas do mundo,

focado na sustentabilidade, colocou-se à disposição para ajudar a Bahia na articulação para a transferência de tecnologias e atração de investimentos. Impressionado com o biopotencial do Estado, único no país com cinco biomas distintos e mais de mil quilômetros de costa oceânica tropical, Flavin exclamou: ‘É tudo que o mundo procura.’ ” (grifo nosso)

 

O ponto que enxergamos como de destaque é exatamente a palavra acima grifada e que também compareceu no título dessa nota: biopotencial. E biopotencial nos faz imediatamente pensar numa economia verde, que, de um lado saiba trabalhar com valores ambientais e, de outro, exatamente por isso nos ajude a melhor entender e economizar o meio ambiente.

Num encontro do G8 (os oito países mais ricos do mundo), em 2007, na cidade de Potsdam, Alemanha, concluiu-se pela necessidade da criação de um painel para calcular o custo dos danos ao ambiente provocados pelo homem. O economista sênior do Deutsche Bank, Pavan Sukhdev, da Índia, foi chamado a coordenar tal iniciativa: "A economia dos ecossistemas e da biodiversidade" (Teeb, de The Economics of Ecosystems and Biodiversity), que se vinculou ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Dados preliminares de seu estudo mostram que o prejuízo causado pela destruição do ambiente só pode ser revertida com uma transição para um sistema econômico mais sustentável. A perda anual representa entre 2,5 – 4,5 trilhões de dólares. Nessa conta está incluída apenas a destruição das florestas, dos mananciais e da vegetação dos mangues. O cálculo foi feito com base no valor atual dos serviços que esses recursos naturais prestam ao homem, como ar puro, água doce, produtos florestais, turismo ecológico, potencial biológico das espécies, prevenção de inundações e controle de secas. Se todos são afetados por essa perda (a humanidade é afetada), indubitavelmente quem mais sofre com essa deseconomia da inteligência e da natureza, é o imenso segmento mundial dos mais pobres: os mais pobres sofrem mais, são mais impactados (principalmente aqueles das zonas rurais), pela destruição ambiental.

A esse respeito, diz-nos Sukhdev, em entrevista concedida a Diogo Schelp, revista Veja de 09/06/2010: “Como têm pouca riqueza privada, precisam da riqueza pública, na forma de serviços ecológicos, para sobreviver. Se continuarmos no atual ritmo de destruição ambiental, em 2050 o prejuízo será equivalente a 7% do PIB mundial. Pode parecer pouco em relação à riqueza global, mas é muito se comparado aos benefícios e ao sustento que a natureza proporciona às famílias dos agricultores pobres. Por isso, acredito que a maneira certa de calcular o custo da destruição do ambiente é compará-lo não ao PIB, mas à renda da população pobre. Por esse critério, os prejuízos causados pelo mau uso dos recursos naturais representam entre 50% e 80% da renda dos pobres.”

Nossa rota de fuga humana a esse desastre que pouco a pouco estamos construindo – e que não temos a obrigação de construir, nem isso é preso a qualquer determinismo histórico, ou seja lá o que for, isto é, pode sim haver um modelo diferente, opcional, mais apropriado e mais inteligente, desde que nos livremos da intoxicação crônica desse supercapitalismo ambiental e socialmente inconveniente de hoje – terá que ser por meio da construção de uma economia verde, da qual o mesmo Sukhdev esclarece: “Trata-se de um modelo econômico que reduz o risco de escassez ecológica e dano ambiental. Estima-se que o impacto da atividade das 3 000 principais corporações do mundo na mudança climática, nos recursos hídricos, no desperdício de material e na poluição tenha um custo de 2,25 trilhões de dólares por ano. Isso representa 3% da economia global e não inclui acidentes ambientais como o vazamento de petróleo no Golfo do México. Uma economia verde deverá contabilizar os custos que a atividade empresarial impõe à sociedade e terá de lidar com eles. A riqueza, então, passará a ser medida com base no acúmulo de capital humano, natural e social, e não apenas físico.”

E para essa economia verde (aliás, talvez pudéssemos provocar falando de uma economia do verde – causa ambiental, e do azul, ou outra cor que convenha, para a causa social civilizatória, posto que aqui também precisamos reexaminar nossas atitudes, ou seja, tudo quanto temos feito que impacta negativamente o ambiente social, causando sub-formas de mal-estar, o mesmo que antecipara Freud, em O mal-estar na civilização...) estamos, nós Brasil, definitivamente preparados, por conta de nosso espantoso capital natural. Esse capital, frente ao quadro de mudanças necessárias que se aproxima, é mais que a soma dos capitais do petróleo, do chip, etc. A dúvida que se antepõe é se saberemos aproveitá-lo, por meio, necessariamente também, de uma tecnologia de administração revolucionária e apropriada para tal.

E voltamos ao artigo inicialmente citado, que tanto nos descortina a misteriosa Bahia como o locus por excelência do capital ambiental, com sua vasta superfície, seus cinco biomas e seus tesouros de terra e mar (mas isso é só uma pequena prova, avant première, de tudo quanto o Brasil possui e tem a oferecer), quanto nos incita a re-conhecer, re-tomar, re-processar a causa da C&T como estrutura e cimento fundamentais para a argamassa da construção desse verde futuro, e a C&T para esse desafio vai muito, muito além do que apenas a criação de novas universidades.

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