Ecotoxicologia: Consequências do elevado consumo de praguicidas no Brasil

Diversas publicações já foram realizadas abordando os praguicidas, devido a sua elevada relevância. Além disso, tem sido objeto de análise recorrente no Toxicologia em Manchete, entre elas as mais recentes são: Brasil importa praguicidas proibidos no mundo; Praguicida organoclorado pode contribuir para o risco da doença de Alzheimer; Crianças morrem na Índia por alimentos possivelmente contaminados com “agrotóxico”.

Reforçando as demais publicações, o Portal RR4 publicou uma notícia no dia 10 de março de 2014, informando que o Brasil apresenta o maior consumo de praguicidas do mundo, além de ter uma fiscalização escassa sobre os usos desses defensivos. Essa situação pode trazer riscos à saúde da população rural e urbana e aos recursos naturais. A notícia ainda informa que 22 dos praguicidas mais utilizados no Brasil são proibidos pelos órgãos estrangeiros, como Food and Drugs Administration (FDA) e European Food Safety Authority, e que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avaliou amostras de apenas 13 vegetais no ano de 2012, enquanto que os Estados Unidos e a União Europeia contaram com uma lista de 300 análises durante o mesmo período.

Existe uma grande diversidade de praguicidas no país. Eles podem ser divididos em classes que consideram o mecanismo de ação que possuem e o grupo químico a que pertencem, entre elas: Inseticidas; Herbicidas; Fungicidas; Raticidas e outros. Em geral, no caso de exposição aguda, esses produtos apresentam efeitos à saúde humana como irritação dérmica, ocular e das mucosas.
Alguns tipos de praguicidas possuem maiores preocupações em seu uso, no caso dos inseticidas, os principais são os organofosforados, carbamatos, organoclorados e piretróides. Os dois primeiros apresentam como mecanismo de ação a inibição de enzimas colinesterases, impedindo a transmissão de impulsos nervosos e causando alterações gastrointestinais, pulmonares, cardíacas, musculares e manifestações neurológicas. Os inseticidas organoclorados apresentam ação no sistema nervoso central, podendo causar alterações cardíacas, renais e pulmonares e, além disso, apresentam efeito acumulativo nos organismos vivos e persistência no ambiente. Os piretróides atuam nos canais de sódio das membranas celulares nervosas e causam, principalmente, irritação das mucosas, náusea, vômito, sensibilização dérmica com dermatite e urticária e sensibilização respiratória. Os fungicidas podem apresentar componentes tóxicos que, em exposição crônica, podem contribuir para o desenvolvimento de Parkinson. Os herbicidas podem apresentar efeitos irritantes, danos pulmonares, gastrointestinais, renais e hepáticos.

A primeira grande preocupação do uso desenfreado desses produtos é referente à toxicidade ocupacional que trabalhadores rurais estão expostos de forma aguda e crônica. Estudos realizados com o objetivo de determinar os efeitos nocivos à saúde ocupacional resultantes do contato com praguicidas indicaram que a exposição está associada, em curto e longo prazo, com vários sintomas, como dificuldades respiratórias, danos na memória, irritação e lesões na pele, câncer, depressão, e outros. Assim, as condições de exposição aos praguicidas pelos agricultores devem ser investigadas, considerando fatores como tipo de cultura, praguicidas utilizados, freqüência de uso, duração da exposição, data do último contato, equipamento utilizado para a pulverização e medidas de prevenção adotadas.

É necessário um maior empenho com foco na prevenção e no controle dos riscos à saúde do trabalhador rural, pois por falta de orientação e despreparo muitos utilizam os EPIs (Equipamentos de proteção individual) de forma inadequada ou não usam. Com o objetivo de orientar os agricultores a Anvisa disponibiliza em seu site uma cartilha sobre praguicidas citando informações como: sintomas de intoxicação, algumas medidas de primeiros socorros, recomendações de compra, transporte e descarte de praguicidas
Também é de grande preocupação o efeito que o uso de praguicidas pode causar à saúde da população consumidora de vegetais, frutas, cereais e outros alimentos que estão contaminados e, muitas vezes, de difícil descontaminação. Segundo o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (Para) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), das amostras analisadas em 2012, os alimentos com maior número de contaminação são: morango, pepino e abacaxi. Ainda conforme o Para, muitas irregularidades das amostras se devem pela presença de praguicidas não autorizados para a cultura no Brasil. Apesar das campanhas de conscientização realizadas, ainda é necessário maior atenção na utilização e fiscalização de praguicidas, a fim de minimizar possíveis danos e efeitos à saúde dos trabalhadores, ao meio ambiente e aos consumidores finais.