
No dia 4 de agosto, um incêndio de grandes proporções atingiu uma indústria química localizada em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. A ocorrência mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros e chamou atenção pelas explosões registradas em bueiros de ruas próximas à empresa, além da grande quantidade de fumaça gerada. Segundo as informações divulgadas, a empresa atua na produção e comercialização de solventes e resinas de poliéster e possui 24 tanques para armazenamento de solventes, com capacidade aproximada de 31 m³ cada.
O incêndio começou durante a tarde e, ao longo do atendimento, o número de viaturas envolvidas passou de 8 para 30. A região foi isolada e moradores das proximidades precisaram deixar suas residências por medida de segurança. O fornecimento de energia elétrica também foi interrompido no entorno da fábrica. De acordo com as informações disponíveis, dois dos 24 tanques foram atingidos pelo fogo. No local, eram armazenados cerca de 2 milhões de litros de líquidos inflamáveis, entre eles tolueno, hexano, álcool etílico, acetato de etila, acetato de butila e resinas. Até a última atualização das informações, a causa do incêndio ainda não havia sido identificada.
O que levou às explosões nos bueiros?
Um dos aspectos que mais chamou atenção durante a ocorrência foi a explosão de bueiros localizados nas ruas próximas à indústria. De acordo com as informações divulgadas, o incêndio atingiu líquidos inflamáveis armazenados na empresa, favorecendo a liberação de gases e vapores. Esses materiais podem ter alcançado a rede de tubulações da região e permanecido confinados em seu interior. Com o acúmulo de vapores inflamáveis e a presença de uma fonte de ignição, houve combustão, provocando as explosões observadas nos bueiros. A Prefeitura estimou que cerca de 30 bueiros poderiam ter sido atingidos.
O episódio demonstra como um incêndio envolvendo produtos inflamáveis pode ultrapassar os limites físicos da instalação. Quando vapores inflamáveis chegam a locais confinados, como redes de drenagem e tubulações, esses espaços podem atuar como caminhos para a propagação dos efeitos do acidente. No caso de Itaquaquecetuba, esse deslocamento contribuiu para ampliar a área afetada e levou os efeitos da ocorrência para pontos externos à indústria.
Produtos químicos envolvidos e seus perigos
Entre os produtos citados como armazenados na empresa estão substâncias com alto grau de inflamabilidade. O tolueno (CAS 108-88-3), hexano (CAS 110-54-3), álcool etílico (CAS 64-17-5) e acetato de etila (CAS 141-78-6) são classificados como líquido inflamável na Categoria 2 (H225), pelo ponto de fulgor, ou seja, a menor temperatura na qual um líquido libera vapores suficientes para formar uma mistura inflamável com o ar, inferior a 23ºC. O acetato de butila (CAS 123-86-4), por sua vez, é classificado como líquido inflamável de Categoria 3 e ponto de fulgor, citado em literatura, sendo 27ºC.
Embora a inflamabilidade esteja diretamente relacionada à possibilidade de incêndios e explosões, esse não é o único perigo que deve ser considerado no armazenamento e no manuseio dessas substâncias. Os produtos envolvidos também podem apresentar perigos à saúde humana, como irritação, toxicidade reprodutiva, efeitos sobre órgãos-alvo e perigo por aspiração, além de possíveis impactos ao meio ambiente, especialmente ao ambiente aquático. Por isso, o gerenciamento desses produtos precisa considerar o conjunto de seus perigos e as consequências que uma exposição, liberação ou perda de contenção pode gerar para os trabalhadores, a população do entorno e o meio ambiente.
Exposição à fumaça durante o incêndio
A fumaça gerada durante o incêndio também representou um ponto de atenção. A combustão dos materiais armazenados pode liberar uma combinação de gases, vapores e partículas, cuja composição depende dos produtos envolvidos e das condições em que ocorre a queima. Dessa forma, a fumaça de um incêndio químico não deve ser considerada apenas uma consequência visual do fogo, mas também uma possível fonte de exposição.
Durante a ocorrência, a fumaça chegou a ser percebida em cidades vizinhas. As informações divulgadas apontaram que a exposição poderia provocar desde irritações nos olhos e na garganta até sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor no peito, dor de cabeça, tontura, náusea, vômito, confusão mental e desmaio. Uma pessoa precisou ser encaminhada para atendimento médico após apresentar um quadro de convulsão.
A dispersão da fumaça também demonstra que os efeitos de um incêndio químico não ficam necessariamente restritos ao local onde o evento teve início. Dependendo das condições meteorológicas e da direção da dispersão, pessoas localizadas a diferentes distâncias da instalação podem ser expostas aos produtos gerados durante a combustão. Nesse cenário, a retirada de moradores das áreas próximas foi uma das medidas adotadas durante o atendimento da ocorrência.
A importância da prevenção e do gerenciamento de riscos
O incêndio ocorrido em Itaquaquecetuba mostra como uma ocorrência envolvendo produtos químicos pode evoluir de diferentes formas a partir de um mesmo evento. O fogo atingiu a área de armazenamento, enquanto vapores inflamáveis alcançaram a rede de tubulações e contribuíram para as explosões observadas em pontos externos à indústria. Ao mesmo tempo, a fumaça gerada se dispersou para uma área mais ampla, levando à retirada de moradores.
A segurança de uma instalação química, portanto, não depende apenas das características individuais dos produtos, mas também das condições em que eles são armazenados e utilizados. A quantidade de material presente, as características dos tanques, a segregação dos produtos, os sistemas de drenagem e as possíveis rotas de dispersão são fatores que podem influenciar a evolução de um acidente e a extensão de seus impactos.
A identificação prévia dos cenários de emergência permite estabelecer medidas de prevenção e resposta mais adequadas. A análise de incompatibilidade química, por exemplo, pode auxiliar na definição de quais produtos devem permanecer segregados, reduzindo a possibilidade de que um vazamento, incêndio ou outra ocorrência seja agravada pela presença de substâncias que possam reagir de forma perigosa entre si.
Uma matriz de incompatibilidade pode ser utilizada como ferramenta de apoio nesse processo, organizando as informações sobre os produtos presentes na instalação e auxiliando na definição de critérios para armazenamento e segregação. As Fichas com Dados de Segurança (FDS) também são importantes nesse contexto, pois reúnem informações sobre perigos, propriedades físico-químicas, medidas de combate a incêndio, condições de armazenamento e procedimentos para situações de emergência.
O caso reforça, portanto, a importância de avaliar o cenário de forma integrada, considerando não apenas o perigo de cada produto, mas também a maneira como ele está inserido na instalação e como seus efeitos podem se propagar durante uma emergência. A antecipação desses cenários e a adoção de medidas de prevenção e controle podem contribuir para limitar a evolução de um acidente e reduzir seus impactos sobre trabalhadores, instalações, população do entorno e meio ambiente.
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A gestão segura de produtos químicos exige conhecimento técnico, informações atualizadas e uma avaliação adequada dos perigos presentes em cada atividade.
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Investir em segurança química significa também investir na proteção dos trabalhadores, do meio ambiente e da continuidade das operações.
Fontes:
- Incêndio em indústria química em Itaquaquecetuba gera explosões | G1
- Por que os bueiros explodiram durante incêndio em indústria química em SP
- Toluene 100.003.297 | Overview – ECHA CHEM
- n-hexane 100.003.435 | Harmonised classifications – ECHA CHEM
- Ethanol 100.000.526 | Overview – ECHA CHEM
- Ethyl acetate 100.005.001 | Overview – ECHA CHEM
- N-butyl acetate 100.004.236 | Overview – ECHA CHEM