Toxicologia: rastros de efeitos crônicos decorrentes da exposição ao DDT?

exposicao ao DDT

 

Atualmente, segundo reportagem publicada no site G1 da Globo, agentes da antiga Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) estão apresentando vários problemas de saúde, para os quais procura-se estabelecer um nexo causal entre a exposição ao DDT (sigla de diclorodifeniltricloroetano) e os efeitos à saúde humana de usuários e/ou aplicadores do produto. Conforme a matéria, uma longa discussão vem se estendendo sobre a necessidade de indenização a estes trabalhadores. 

A Sucam atuou na região Amazônica entre os anos de 1970 a 1990 no controle da proliferação do mosquito que provoca a malária. Neste período, era empregado o praguicida DDT para fins de saúde pública. Diversos agentes da Sucam manipularam o praguicida durante anos como atividade de trabalho.
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O DDT é o primeiro praguicida considerado moderno. Teve expressivo emprego após o fim da Segunda Guerra Mundial no combate aos mosquitos vetores da malária e do tifo. Tal composto foi primeiramente sintetizado em 1874, suas propriedades inseticidas foram determinadas em 1929, pelo químico suíço Paul Hermann Müller. O agente é sólido em condições de 0°C a 40°C, insolúvel em água e miscível em alguns solventes orgânicos. 

O referido composto tem ampla ação inseticida, altamente eficiente e apresenta curto período de tempo para sua ação, entretanto, pode provocar efeitos nocivos ao ser humano, principalmente a longo prazo, e também ao meio ambiente. A bióloga Rachel Carson relatou no livro, atualmente considerado um grande clássico, Primavera Silenciosa (Silent Spring, em inglês), os efeitos deste produto à saúde humana, tais como câncer, além de relatar os efeitos nocivos aos animais, como mortalidade de pássaros. 

Com o conhecimento de que o composto tem altos potenciais de persistência (meia-vida no solo de 2 - 15 anos), bioconcentração e biomagnificação, e, devido ao potencial de toxicidade para a reprodução e a carcinogenicidade, evidenciados em estudos com animais, o DDT teve seu ciclo (produção, armazenamento, aplicação etc.) proibido em muitos países, inclusive no Brasil (aqui, pelas leis n° 329 de 1985 e n° 11.936 de 2009). Muitos países baniram o DDT na década de 70, dentre eles os EUA. O composto tem seu uso controlado pela Convenção de Estocolmo, que trata dos Poluentes Orgânicos Persistentes. 

O DDT  volatiliza-se do solo e água com o aumento da temperatura, e pode ser removido da atmosfera por deposição seca ou úmida, voltando ao solo e água. Ele e seus metabólitos [DDE(Diclorodifenildicloroetileno) e DDD (Diclorodifenildicloroetano)] são extremamente lipossolúveis, sendo bem absorvidos pela via oral, distribuídos e acumulados em tecidos ricos em conteúdo lipídico. A absorção pelos pulmões e pela via dérmica parece ser de menor importância em relação à via oral, mas a exposição pela via inalatória pode levar a uma provável absorção através da ingestão do material movido pelo aparelho mucociliar.
A principal via de eliminação do DDT em humanos parece ser a urina, mas pode ocorrer também pela via biliar (fezes) e no leite. Dados da modelagem PBPK (Physiologically Based Pharmacokinetic) indicam que o coeficiente de partição glândula mamária/sangue é igual a 12, o que gera preocupação quanto a exposição de lactentes. 
Tem sido discutida a permissão do DDT para utilização no combate do vetor da malária em zonas endêmicas. Algumas agências de saúde têm considerado que o benefício da mitigação do impacto da malária à saúde da população pode compensar os riscos da utilização dos praguicidas nas regiões endêmicas de malária. 

Esta notícia evidencia que o impacto da exposição a substâncias químicas pode se estender por anos, e mesmo, por gerações. Recentemente diversas matérias têm discutido a questão do mercado ilegal de praguicidas provenientes da China, como aponta um especial  publicado pelo Le Monde sob o título “Ecocide”.

Referências
http://www.lemonde.fr/planete/article/2015/02/21/ecocide-pesticides-connection_4581050_3244.html

http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2015/02/uso-de-inseticida-pode-ter-matado-240-no-ac-15-estao-na-fila-da-morte.html

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11936.htm

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