Bisphenol-A: o trabalhador está seguro?

Convidamos o leitor a conhecer outra face dos riscos de exposição ao Bisphenol-A, numa breve discussão sobre exposição do trabalhador.

Na última semana, apresentamos uma matéria sobre a discussão internacional acerca dos riscos da exposição dos consumidores ao Bisfenol-A (BPA), uma substância utilizada no revestimento de recipientes de alimentos e bebidas, não informada nos rótulos, e que pode migrar para os alimentos, sendo ingerida.

Recentes estudos vêm evidenciando que o estrógeno sintético BPA, pode causar impacto na fusão tireóidea humana e prematuridade, entre outros efeitos, em baixos níveis de exposição (Cantonwine, 2010), o que traz preocupação ao consumidor, que não conhece a que níveis está sendo exposto, já que não é informado sobre as concentrações do contaminante, o que deveria figurar nos rótulos dos produtos.

Em matéria divulgada pelo jornal americano “The Washington Post”, um estudo revelou que trabalhadores chineses expostos a altos níveis de BPA tiveram redução nos níveis espermáticos. O estudo realizado pelo National Institute of Occupational Safety and Health (NIOSH) e publicado no Journal Fertility and Sterility foi realizado com 130 funcionários que trabalhavam diretamente como BPA. O estudo refere-se à exposição ocupacional, com níveis de exposição superiores aos da exposição pelo consumo de produtos. Segundo a mesma fonte, o Canadá já incluiu o BPA em sua lista de substâncias tóxicas.

O NIOSH publicou em fevereiro deste ano um documento, sob o título “Skin Notation (SK) Profile Bisphenol A (BPA)”, com informações toxicológicas sobre exposição dérmica ao BPA, avaliando-se efeitos locais e sistêmicos, com a finalidade de melhorar a gestão do risco no ambiente ocupacional. Para a classificação do BPA, foi utilizado o GHS (Globally Harmonized System), cujos dados resumimos a seguir, comparando com estudos atualmente disponíveis.

Quanto à toxicidade local, o BPA foi classificado como irritante para a pele de categoria 2 - frase de perigo: causa irritação cutânea-, segundo dados de estudos em animais; e como sensibilizante de categoria 1 - frase de perigo: pode causar reação alérgica-, a partir de dados suficientes de estudos humanos e animais. Segundo o documento, até a data de publicação, não havia dados de estudos toxicocinéticos in vivo, e os estudos toxicocinéticos in vitro sugeriram que entre 2,5 - 10 horas de exposição, 3 a 11,4 % da dose aplicada podem se acumular na pele, primariamente, na superfície e na derme. Ressaltamos que outros trabalhos já foram publicados, com modelos toxicocinéticos in vitro de exposição dérmica, inclusive com informações sobre metabolismo do BPA. Ver: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21030062

Quanto à toxicidade sistêmica, o documento afirma que não havia dados disponíveis de Dose ou Concentração Letal para a via dérmica, o que impediu a avaliação sobre a toxicidade aguda do BPA. Na época, não havia dados epidemiológicos de toxicidade sistêmica, nem estudos humanos avaliando efeitos biológicos específicos. Ressaltamos que após a publicação do NIOSH, outros trabalhos foram publicados sobre a toxicidade do BPA, como o de Cantonwine e col. (2010) sobre o risco de prematuridade; e o de Li e col. (2010) referente à diminuição da qualidade do sêmen, sendo de grande relevância por serem estudos com humanos.

Fazendo uma breve busca no PubMed, de maneira restritiva, na subárea toxicologia, selecionando dados de estudos humanos posteriores à publicação do documento do NIOSH (nesse caso, a partir de fevereiro de 2010), com a palavra-chave “bisphenol-A”, obtemos 61 trabalhos, cujos títulos indicam dados sobre exposição, toxicocinética, e diferentes efeitos críticos (distúrbios endócrinos e metabólicos, integridade de células, e até efeitos epigenéticos carcinogênicos), o que explica a grande discussão internacional à cerca dos riscos de exposição ao Bisphenol-A, e da posição de grandes empresas na retirada da substância de seus processos.

Fontes:

CANTONWINE, D.; MEEKER, J. D.; HU, H. Bisphenol A exposure in Mexico City and risk of prematurity: a pilot nested case control study. Environmental Health, v.9 , n° 62 , s/p, 2010. Acessado em 25 de outubro de 2010, disponível em:

http://www.ehjournal.net/content/9/1/62

LI, D.K.; ZHOU, Z.; MIAO, M.; [ET AL.]. Urine bisphenol-A (BPA) level in relation to semen quality. Journal Fertility and Sterility, s/v, s/n, s/p, 2010.

NIOSH- National Institute of Occupational Safety and Health. Skin Notation (SK) Profile Bisphenol A (BPA) [CAS No. 80-05-7]. Acessado em 1 novembro de 2010. Disponível em:

http://www.cdc.gov/niosh/docket/review/docket153A/pdfs/A-11.SKProfile(BPA).pdf

PUBMED – MEDLINE. Viable skin efficiently absorbs and metabolizes bisphenol A. Acessado em 1 de novembro. Disponível em:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21030062

The Washington Post. High exposure to BPA linked to low sperm count. Acessado em 1 de novembro. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2010/10/28/AR2010102800586.html?cid=xrs_rss-nd

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